Filomena Sabino
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Pai
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Amélia da Conceicão
Sai pela manhã, a pequena figura que a aldeia viu nascer, e nos seus nus pequenos pés, passeia a travessa pelo nascer do sol; a escola ao longe já existia, pequena, airosa e pintada de branco, ao cimo, no monte, o moinho espreitava a aldeia e girava sorridente.
Percorria alguns caminhos de terra batida, uns ou outros, de pedra de calçada, Amélia da Conceicão, caminha, caminha segura no seu traje de menina, as pequenas pernas esguias e frágeis, são tal como o seu cabelo de cor dourada de espiga ao vento! os braços finos, seguram livros de capas azuis da cor do mar, e o vento levemente, ajuda- a a caminhar.
A aldeia perdida no meio do monte, entre oliveiras e searas, sursurrava, era o principio do dia, a bata branca, o laço no cabelo, a escola e a professora...
A professora que pede:- Amélia recita o canto!
Então Amélia recita-o, no seu frágil pequeno ser, quase assustado, de olhos grandes da cor do céu, firme na sua posição de menina, filha da aldeia e de futura rainha do céu, Amélia vai recitando:
"Amélia da Conceicão, sou eu então, posso afirmar
com esta pequena altura, minha figura é conheçida,
altura não quero mais, gosto de ter esta medida "
E as palavras saem- lhe soltas e leves ...e doçes ao soar
Amélia sorri, e no cansaço do seu corpo frágil e desnutrido, Amélia pensa, pensa naquele dia na escola no palco, onde todos olhavam, e onde ela foi estrela nesse dia, ainda se lembra, sozinha no palco, recitava o pequeno canto,...a professora orgulhosa, e as crianças olhavam-na fascinadas, e ela continuava a cantar....
"Amélia da Conceição, sou eu então, posso afirmar
Com esta pequena altura, minha figura é conhecida..."
E as crianças batiam as palmas...
Agora, na cama branca estreita de ferro, debaixo da colcha fria do inverno, que a cobre, e presa num corpo cada vez mais fragil tuberculoso, e cada vez mais longe da vida, continua cantando, sussurando baixinho..."- Amélia da Conceição, sou eu então, posso afirmar"....o som das palavras saem -lhe mais baixo, quase tristes, mas Amélia sorri, ainda escuta a voz da irmâ e da mãe ao longe a perguntar- lhe Amélia, Amélia estás ai? ela enrola o dedo na ponta do lencol branco e ainda, vê pelo canto do olho, uma lagrima a rolar, pela face vermelha, é a sua irmâ mais velha que a chora, sente a mão aspera e forte da mãe que a tenta segurar à vida, vê a silhueta ao longe do pai ao lado da fogueira casbixado, sentado de cabeça baixa, e a mãe ainda pergunta, Amélia, Amélia estás ai,? Amélia fecha levemente as pálpebras, e uma lágrima escorre pelo seu sorriso timido e já cansado, mas continua a sonhar, ela no palco, figura pequena, estrela nesse dia, Amélia da Conceição, sou eu então...e a mãe continua a perguntar Amélia, Amélia estás ai?
mas a Amélia já cá não está, ela agora é rainha nos céus!
domingo, 23 de fevereiro de 2025
O moço de Lisboa
O moço de Lisboa, tinha ele, uns nove ou dez anos, quando o vi subir, o monte pele primeira vez, moço bem arranjado de traje limpo e sapatos engraxados, olhar de quem não é dali, e que acaba de chegar, nunca o tinha visto antes por ali, mas como caminhava familiarmente a passos quase lentos ao lado da patroa do meu dono, decidi ficar, debaixo da oliveira, de corpo estendido ao sol, sobre a terra gretada e seca do pátio, só de cabeça meia erguida, seguindo-o com os olhos ....
A patroa, mulher esguia, e de pequeno porte, voz delicada, e crente na palavra do senhor, e na salvação das boas almas, praticava rezas à noite, e visitas à igreja aos Domingos, habituada a viver só, no seu monte bem cuidado e abundante, viúva e com os filhos casados e a viverem longe na cidade, tinha naquela tarde de sábado de Agosto, a visita do afilhado, vindo para passar as ferias de verão. Quando ele se aproximou, soltei um latido, e como se me conhecesse há muitos anos, fez-me uma festa no pelo, chamou-me de Campeão, sentou-se ao meu lado sobre a terra, debaixo da oliveira, em frente da casa caiada, debaixo do sol intenso do alentejo...
O caseiro, o caseiro que também, ali estava, era um homem solitário, que vivia a quatro ou cinco quilômetros num monte, o burro e eu acompanhávamos o caseiro todos os dias, seguiamos-lhe a sombra, guiados pelo sol, de monte para monte, caminhando os três, sobre a terra ressequida e gretada e quase vermelha, do alentejo, escutava-se os passos, os meus os do burro e os do caseiro, eram passos frequentes, firmes, quase constantes, alguns mais leves outros mais pesados, as horas da manhã e o fim do dia, o sol, os montes, o trigo, as árvores, as rolas reconheciam os nossos passos, o moinho branquinho e sereno ao longe, também, nos saudava ,e dava-nos licença para seguir o caminho, vínhamos e voltávamos de monte para monte, o Burro quieto e velho, quase que aborrecido, sempre obedecia....e lá continuávamos, o percurso de monte para monte...
O moço de Lisboa não gostava muito do burro, para bem dizer, não lhe tinha muita confiança, sofria assim , uma espécie de tortura diária infernal, feita pelo caseiro, que todos os dias o incentivava a montar-se no burro...duvidando a sua capacidade de rapaz de cidade, em monte alentejano, o moço negava montar-se no burro, e quase como aflito, evitava a presença do caseiro; não muito longe do monte, havia o pastor, o pastor tinha as suas ovelhas e era amigo do moço, pedia-lhe historias da familia e da cidade para contar, -então como é que é lá em Lisboa, e tens namorada? sentavam-se na terra seca, lado a lado, o moço e o pastor, o moço de lisboa respondia educadamente as perguntas do pastor, vigilavam as ovelhas, o pastor assobiava e elas vinham, retornavam a casa, o cão também entrava no cenário, e as ovelhas obedeciam, ligeiramente iam- se posicionando, nos lugares devidos, até terminarem, o que tinha que ser feito, e naquela paz de fim de tarde alentejano, o pastor e o moço de Lisboa continuavam o dialogo, em palavras soltas e latidos de voz, ao longe, ouvia-se as cigarras, os melros e sentia- se o cheiro do vento doce, da azeitona perfumada, em toda a sua calma....
Naquele domingo, de manhã, a madrinha como de costume, ia à missa, a madrinha perguntou ao moço de Lisboa, se a queria acompanhar, decidiu ficar sozinho, gostava de ficar sozinho, a madrinha concordou, com a condição de do monte, não sair, costumava ser obediente, mas tinha decidido naquela tarde de domingo, visitar o caseiro ao seu monte, seria segredo, nada nem ninguém poderia saber, a viagem não era longa, quatro cinco quilômetros de bicicleta por estrada de areia batida, e não demorar muito tempo, e assim fez,
Avistei-o logo ao longe, e para ajuda-lo às boas vindas, foi a correr ao seu encontro, a latir, fez-me uma festa nas orelhas, deu me uma palmada leve no lombo, e sorriu-me, o caseiro que estava a fazer a barba ficou admirado de tamanho alarido, tão cedo pela manhā, abriu a porta de casa, na curiosidade de ver o que se passava, e avistou o afilhado da patroa, que em passos lentos, segurando a bicicleta, aproximava-se lentamente, e numa voz civilizada e branda, anunciou -sou eu, vim fazer uma visita, o caseiro de camisa interior e ainda de pincel na mão e barba por fazer, sorriu, alegrando-se da visita.
o caseiro, mostrou ao moço de Lisboa, o monte e a casa, o pomar, a horta bem cuidada, os animais, a lenha guardada, a casa de fazer os enchidos, os quartos grandes e vazios, os cortinadas balançando -se ao vento, feitas de bordados e historias por contar, as mobilias de cerejeira, desenhadas, em retalhos celestiais, a mesa da cozinha longa e vazia feita de castanheiro, como se tivesse à espera de uma família que nunca, ia chegar...
Também, havia a Pileca para conhecer, tímida nervosa, mas confiante, uma mula, senhorita do monte, ali nascida e criada, habituada a pequenos trabalhos, e simpática nas suas atitudes, morena, baixinha, de pelo castanho escuro e grandes olhos cor avelã, as mãos grandes do caseiro bateram-lhe no lombo, o pé do moço de lisboa pisou firme na mão do caseiro, ajudando-o a subir, assim a montou, saiu do estábulo, feliz e contente orgulhoso, tarefa cumprida, não foi com o burro, mas aconteceu hoje aqui, com a pileca! o caseiro também sorria, mostrou -se orgulhoso na ajuda e no encorajamento prestado, e disse,: - Eu não te tinha dito que não devias ter medo,? estás a ver conseguiste....o moço de Lisboa não respondeu continuou montado em cima da Pileca às voltas no monte, de sorriso tímido, e eu acompanhava-os, ao lado, alegremente, latindo sem parar....
sexta-feira, 5 de novembro de 2021
A tia e o poço.
A tia e o poço..
Ouviu a lenha estalar mais uma vez, no fogo da lareira da cozinha, e saiu à pressa, como se o tempo continuasse parado na sua grande e imensa solidão. Ao longe, um horizonte grande, robusto decorado com oliveiras, sublinhado em cima por um céu vasto azul, livre e anarquista.
A calma da manhã comecava, e já se escutava a aldeia, passos de botas em pés de adultos, passos de crianças em botas pequeninas, chinelos manualmente mal retalhados, animais que falam, gatos molengões e infelizes, deslizando-se lentamente pela travessa da aldeia, procurando tocas em paredes para se esconderem...
Ali o meu pai, a sua casa, e a casa da sua familia, tantos irmãos, todos sentados à mesa em horas de almoço, o almoço que se chama jantar, o pão caseiro da minha avó, a calma do dia, tudo junto no cenário campestre, uma aldeia remota do interior seco alentejano.
O moinho, o moinho sempre lá esteve, sempre contente e vaidoso, espreitando curiosamente do alto do monte os figos tímidos da India, o moinho, pequenino, branco e maravilhoso...
O cantar dos grilos e das cigarras na noite quente alentejana... -gostas de nêsperas? tens que provar umas que tenho lá no quintal. A nespereira bonita, castanha e atrevida a querer espreitar o cume do poço, a minha tia contente e risonha, alta e esguia, os dedos compridos, fartos de fazer maravilhas, maravilhas em renda, bordados imaginários, onde a agulha desliza feliz e independente sobre o dedo que a dirige, a minha tia, a tia que nunca vi....
À minha frente, uma figura de idade, com muitos anos, agora mais baixo, mais calmo, e mais lento, sobrevivente, o sobrevivente que conta memórias, a familia grande que acabou.
Recorda as manas, recorda os manos: - éramos sete, o primeiro que acordava vestia as calças....e continua quase murmurando - uma sardinha era para dois, uma pausa, um pequeno, meio sorriso e a conversa continua pausadamente.... -naquele tempo, muitos morriam de tuberculose!
baixa a cabeça, continuando o dialogo que quase é monologo.
-Não sei bem o ano em que foi, pois já não me lembro bem, mas tinha ai uns dezassete anos e fazendo as contas ao ano que nasci, devia ter sido em 1949, sim, estávamos no ano 49..............
A tia alta e feliz, de pernas compridas e esguias, dedos de princesa, mãos de fada engenheiradamente, inteligentes...um sorriso largo num rosto longo, o cabelo farto e castanho preso de lado numa travessa castanha de dentes finos....um colar de botões feito por si, os irmãos quase todos mais pequenos ....a energia saudável de um corpo comprido vestido de branco e de rendas, a irmã mais nova e estudiosa, com os livros sempre a acompanhar,, companheiras as manas, diferentes mas amigas, a cozinha grande, com o lume ao canto escondido, o pai a mãe, os irmãos homens, mas tão pequenos ainda por cuidar....A roupa suja por lavar, tia de corpo longo e esguio, pergunto-lhe; -vais lavar a roupa?
A tia foi lavar a roupa, foi lavar a roupa numa manhã de sol, descendo a travessa e a aldeia, de alguidar à cabeça, mão na cintura, sorriso no rosto.... ao sair de casa, ainda ouviu a voz da mãe dizendo, - traz umas nêsperas!
O poço, ao lado da nespereira, eu ainda lhe disse - tia não vás lavar a roupa, mas a tia não me ouviu, desceu a travessa e a aldeia de alguidar à cabeça e mãos à cintura; a mãe ainda a lembrou; -traz umas nêsperas! desceu a travessa, passos por caminhar, manhã quente de Maio, de cheiro a figos, e a roupa por lavar, a tia foi lavar roupa, saudou o noivo, apanhou as nêsperas, o galho da nespereira partiu, a tia caiu, a tia não voltou, tia, tia.....a tia sozinha de tez cinzenta lá em baixo, estática, no fundo do poço, os manos tristes a chorar...
O corpo alto e esguio da tia, o braço partido, tez da cor da morte, corpo frio e esguio, atravessando a aldeia embrulhado, na manta castanha de lã de barras brancas, a dor de quem o vê passar. Gritos e choros, a minha avó, vestida de negro, o meu avô fragil e franzino, silenciados na dor, a lágrima a cair, primeiramente uma devagar depois muitas outras, deslizando em fila, uma atrás da outra, devagar sobre a tez seca e enrugada do vasto sol alentejano....
Os irmãos da tia, a mana da tia, a tia estendida na cama, a mana a chorar, a tia estendida, morta de braço partido sob a cama de ferro azul, as visitas ao quarto da tia morta, a tia vestida de branco, o cabelo castanho, preso ainda pela travessa castanha, ( que teimou em ficar) as pontas do cabelo ainda molhadas da água do poco, a tocar as rendas sob o peito do vestido branco largo e solto, terminando em gotas como lágrimas a rebentar sob o algodão do vestido...
O choro fininho e silencioso do meu pai no quarto ao lado da irmã....a vingança do meu pai...a ida à nespereira... a corrida desesperada de lagrima no olho e a dor quente na garganta, a dor da irmã que morreu, ainda a voz da minha avó - não te esqueças das nêsperas! o poço a respirar ainda a morte......a nespereira escondida sob o poço, sentindo remorsos, do que fez!
O galho ainda a bailoçar timidamente sobre o cume do poço....a fúria do meu pai ainda jovem e miúdo...a morte injusta e sorrateira que lhe levou a mana....
Continua a falar, ainda, encostado aos armarios da cozinha, as mãos atrás das costas, como se fosse pequeno e não tivesse ainda terminado a confissão daquele dia, e continua soletrando as palavras, num tom baixo e vagamente...:
- Sai de casa a correr, fui à nespereira, levei um machado e parti-a...
...nunca contei nada a ninguém...
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