Querido Pai, não devias ter partido no verão, tu que, gostavas tanto do verão e como só tu dizias " o verão é a manta dos pobres" agora nesta casa, só ficou o silêncio, o teu lugar ficou vazio à mesa, o teu lugar ficou vazio no cadeirão da sala, o teu lugar ficou vazio na cama da mãe, também já não escuto as tuas passadas grandes e leves no corredor escuro, esguio e longo, "já fiz quatrocentos passos" dizias contente e orgulhoso, contigo, a vida era em frente e tu assim não envelhecias, pois em cada ano que passava, rejuvenescias e ficavas um ano mais novo...
Estou deitada na cama a escrever, enquanto a mãe dorme a sesta, chorou baixinho, antes de adormecer, tem saudades tuas, sei que pensou em ti...
O meu pai era grande bonito e alto, tenho cinquenta e sete anos de pai, o coração aperta, dói, fere, magoa, depois vem a raiva, fica só o vazio, o vazio que não é vazio, mas sim um buraco intenso e pesado, onde mora a saudade interna...
Pai, eras um homem de não muitas palavras, tinhas um silêncio grande, que te envolvia e que te acompanhava, tenho saudades do teu sorriso, e a pena de não termos tido mais horas juntos neste mundo, quando era miúda mal te via, saias às cinco pela madrugada, e chegavas às nove e meia, quando te atrasavas a mãe ao principio da noite, dizia preocupada " -o teu pai não vem" mas depois. ouvia -se a campainha a tocar, e eu ficava aliviada, e a correr ia abrir-te a porta, e tu entravas em casa, grande alto, vestido, no teu uniforme de sempre, cinzento, com o broche do comboio pequenino de ferro pendurado na lapela da boina, na tua mão grande e forte trazias a pasta quadrada castanha de couro velho, onde levavas a marmita com o almoço que a mãe sempre te preparava no dia anterior, levavas peixinhos fritos, azeitonas, pão e a sopa era sempre bebida na tasquinha ao pé da estação, querido pai, eras o bagageiro mais bonito da estação de Santa Apolónia, e essa estação foi sim, a tua segunda casa...
Encontrei as fotografias, na tua carteira, que estava guardada na ultima gaveta da mesa de cabeceira, numa das fotografias, onde apareces num grupo de colegas bagageiros, tal como tu...pronunciavas, -todos já mortos... dizias quase tragicamente, enquanto olhavas muito de perto, a foto, - já lá estão todos, acrescentavas, enquanto olhavas pormenorizadamente, cada detalhe, depois apontavas para cada um e contavas em frases curtas e sérias, o destino que cada qual eventualmente tinha traçado, -este tinha menos dois anos, que eu, prosseguias, mas já morreu, só já cá estou eu.... contestavas tristemente... depois surge a outra foto...
"O Américo", eu sei, que o sempre guardastes na tua carteira e também no teu coração, a fotografia deve ter andado na carteira setenta anos, e passaram setenta e três anos que o Américo morreu, contavas a história do Américo, muitas vezes, sentados à mesa depois do jantar; contaste a mesma história, mais do que, seis vezes, e quase sempre após ao final da história, dirigias-te ao quarto silenciosamente e trazias a fotografia do Américo, bem apertadas à tua mão, eu sempre fingia que nunca tinha visto a foto, ou mesmo escutado a história, só para tu ficares feliz, a foto do Américo, era uma foto a preto e branco, na foto via-se o Américo, um jovem de cabelo farto, sorriso tímido e olhar ingénuo, a foto já denunciava sinais do tempo, e umas manchinhas brancas nubolosas surgiam em vários cantos da fotografia, e tu continuavas...
...-assentámos praça juntos... -foi um dia de muito calor, foi em Faro, estava um sol horrível ...morreu escorregou, caiu da carroça, as rodas passaram por cima dele, coitado, acrescentavas, -era um bom tipo, pobre Américo, tinha acabado de fazer vinte anos....-a mãe morreu quando ele era ainda muito miúdo....éramos muito amigos....coitado, teve azar....o pai chorou muito, e eu também....a tropa ainda lhe pagou uma indemnização...
Lembraste pai, quando me levavas as cavalitas e iamos apanhar caracóis?, era eu, a mãe, a Nélia e tu, iamos a pé até ao Vale Figueira, eu ficava tão contente, sentia -me alta e segura, lá em cima nas tuas cavalitas o mundo visto lá de cima, não era tão grande....e eu tornava-me maior e sentia -me assim, protegida, era um passeio que cheirava a figos, pinhões, a canas e mato, no verão à tarde ouvia -se as cigarras, as cigarras são as donas das noites quentes de verão, são as rainhas do calor, são as mensageiras do calor e da serenidade que o verão nos dá, e eu quando as escuto, sinto uma enorme paz e alegria, como se o mundo se tornasse ainda maior, como se no verão, sobre a terra castanha vasta e avermelhada não existisse tempo para morrer.... o vento quente que transpira a terra serena e preguiçosa, nos deixasse viver para sempre ao sabor do calor, pois a morte aqui não jaz....e sabemos que nem há espaço para ela...
Os passeios a pé ao Vale Figueira, quase sempre foram feitos em Familia, e nos dias de folga do meu pai, quando chegávamos, visitávamos, a irmã do meu pai, as minhas primas o meu tio e algumas vizinhas mais próximas, na rua onde vivi os meus primeiros quatro anos, vivia ao fundo, um pobre Santo António, de olhos tristes e de capa castanha, trazia uma criança ao colo, já desapareceu, retiraram -no de dentro da sua casa de vidro, uma capelinha situada ao fim de uma estrada poeirenta feita de areia....que fechava uma rua.
O Benedito, o Benedito era um pintainho verde que tu pai, nos trouxestes a mim e à Nelia, obrigado pai pelo Benedito, tanto que chorei no dia que morreu, tinha nove anos e ele morreu no dia dezassete de Outubro, o Benedito era o meu pinto amado, seguia- me como se eu fosse a sua mãe e num dia menos bom, acidentalmente, pisei-o sem querer, ainda o tentamos salvar, por entre grandes sentimentos de culpa, lagrimas e aflições, enfia-mo-o debaixo da água para reanimar, embrulha mo-lo dentro de uma meia de lã, para não ter frio, demos- lhe água no bico para não ter sede, mas a dança da morte, foi mais rápida que nós, e veio- o buscar, chorei muito, ainda hoje penso nele, querido Benedito, sei que paras entre outras almas...
O ultimo dia que te vi, abracei -te, limpei -te a boca seca, dei-te água, apertei-te a mão, estavas mal, tu dizias nos teus noventa e quatro anos quase meio, -estou nas ultimas, mas eu para te animar, falava que tu virias para casa, que a "bordoa " bordão", o qual tu gostavas de chamar, de "bordoa", estava à tua espera, infelizmente, nunca mais viestes para casa, e esse foi o ultimo dia que falei contigo, pediste água, murmurastes coisas, nos últimos dias da tua vida, chegastes a ver a tua mãe, falastes de pessoas que a rodeavam, depois vistes a minha mãe com um bebé ao colo, foi a filha que tivestes e que nunca vistes crescer, a minha irmã, que partiu ainda bebé?
Pai, a morte já esperava por ti, escondida na esquina escura fria, alimentando- se do teu corpo e da tua alma, e todos os dias tu nos dizias adeus, e eu e os outros, sem o saber. As almas vinham-te visitar, brindavam contigo, e contavam- te segredos, e nós não o sabíamos, pensava que poderia chegar aos cem, mas o destino, assim não o quis, e tu partistes, não tive tempo de te dizer adeus, fostes embora, a dormir, a sonhar, pelo caminho encontrastes os que amastes, aqueles em que tanto falavas em vida, mas tu sabes lá, onde a tua doce alma sossega, que eu agradeço, todos os dias o pai que tive, e que a saudade é sempre eterna.....
Obrigado pai, e até um dia....