terça-feira, 20 de dezembro de 2016

you have to face the book



you have to face the book...


A nossa vida virtual realmente dá trabalho, hoje em dia, quase todos nós vivemos duas vidas paralelas, ou seja; a vida real e a vida virtual, e temos que tomar bem conta das duas... e isso não é pera doce!
Desconfio que muitos de nós em aproximadamente dez anos, devido a viver e a tentar manter estes dois mundos paralelos ao mesmo tempo, poderá desenvolver qualquer diagnostico de esquizofrenia....

Um outro meu amigo do facebook, (quando postou as suas habilidades facultativas a escalar montanhas) ficou chateado comigo no outro dia, porque esqueci-me de lhe por um like, por outro lado a Anita, bloqueou-me no FB porque esqueci-me de lhe desejar os parabéns; quando a encontrei passado quatro dias depois, na pastelaria, disfarçou a coisa a oferecer me uma bica ranhosa e indiretamente falou.me do PC dela que anda com vírus, vírus esses que afasta pessoas e as bloqueia...hoje em dia falar dos nossos "devices" eletrónicos, é quase como falar de nós e das nossas relações afetuosas com os nossos ente queridos; ora vejam; "tá com vírus" "está sobrecarregado" "precisa de uma pausa"...
A maior vingança do ser humano, hoje em dia, é retirar, não adicionar, ou bloquear alguém no FB....

As nossas habilidades mais ou menos melhores são sempre no nosso mundo digital reveladas, mas se te esticas muito e até tens jeitinho para muitas coisinhas...uuuuiiii uma dor de cabeça para alguns, se és daqueles poucos modestos e um bocado frontais, escrevem e depois pensam... (tipo eu), levas com com pensamentos e bocas digitalmente indiretas, tipo: esta gaja tem a mania que é Chica esperta...

Os nossos amigos emoji, até ajudam a coisa, quando as palavras soam rudes e frontais, lá do outro lado do screm, disfarçamos a coisa com um smile....se queremos dar graxa a um amigo e tentar levantar- lhe a auto-estima ou o moral, espetamos-lhe com um emoji de admiração, nem que seja só porque o gajo postou uma foto dele próprio, numa viagem de burro, num itinerário reduzido, Alentejo-Lisboa...

A tua melhor amiga do FB cortou o cabelo e coitada infelizmente, ficou horrível, postas um coração, em sinal de solidariedade para com ela, afinal (os amigos são para o pior)....a outra tua amiga, sim..aquela gaja que nunca diz nada, mas tá sempre online...sim, aquela gaja que muito sinceramente tu  até estás a pensar eliminar....pois aceitaste o pedido de amizade, só porque era amiga de uma amiga, mas afinal essa amiga, tb não a conhece...e tu até já desconfias, sinceramente de ela ter qualquer coisa de suspeito,.... ora vejamos, está sempre online e escondida tipo submarino....não andará ela a te controlar, e foi mandada por alguém?...porque será que te fez um pedido de amizade e nunca te postou nem um like...lol, este tipo de situação, desconfio que futuramente tb poderá desenvolver diagnósticos de paranoia em certos indivíduos...

Nós, pessoas no geral, conclui através de alguns anos árduos no Face, que somos chatos, repetitivos e temos muitas manias, uns tem a mania da defesa de andar descalço, dizem sim aos pés sujos e descalços e não aos sapatos, dizem tb não ao gluten e defendem os caracóis as peles das ovelhas e as penas das galinhas..e tudo que tem a ver com o que é natural e biológico!

Outros, a coisa pode ser mais dramática, o mundo resume-se, simplesmente a compartilhar, posts assustadores e ameaçadores, prós amigos; "se voce não postar isto não cara, vai ter 20 ano de maldição" ou então, posts de vingança ao namorado, que se conclui, que se devem ter deixado há mais de dez anos, mas que ainda não engoliram todos os sapos, que deviam ter engolido, e que ela acha que ele ainda a persegue, através de outros perfis; a coisa revela-se assim:
"Se você está olhando para mim e está vendo que sou feliz cara, te digo que a inveja não é de gente boa não, mas de gente ruim sim..." 
Geralmente este tipo de posts, são: made in Brasil!

Depois tb temos aqueles pessoas, que tendem a ser, clássicas, gentis e amáveis e que todos os dias ou quase todos os dias...nos cumprimentam com um bom dia e um bom fim de semana! depois tb temos aqueles, (para mim são os mais insólitos), que nunca postam nada, só postam algo,  de ano a ano, quando realmente algo de muito grande mas muito grande lhes aconteceu, estilo;" tive 20 valores no exame final de curso" ou " a minha primeira viagem á lua" ou " arranjei trabalho na NASA, estou feliz!" 

Por ultimo e para não chatear mais ninguém; (pois já devem estar a ficar fartos da conversa), temos os  "forever in love" aqueles casais que se amam, desde que o FB apareceu. e que parece que nunca discutem ou discutiram e alias estão sempre de acordo em tudo, são os casais que eu designo por, os  casais gémeos! estes casais, estão em pares em tudo, incluindo na foto de perfil, e a única coisa que gostam de postar, é o amor entre eles, gostam bem de se certificar se o pessoal amigo do FB já se deu conta do grande amor existente entre ambos, por isso persistem, postar, todos ou quase todos os dias, as mesmas frases do costume, ás vezes saltitando pequenas diferenças, tipo assim;  ela; " eu amo você," ele: " eu amo você mais" ela: "meu amor tenho a certeza que eu amo ainda mais...", ele: minha querida, não tenha certeza não, porque a minha vida sem você não tem razão....

Depois também acho muito engraçado, aqueles que fazem, pedidos de amizade, e que vais ao perfil deles, para ver se realmente vale mesmo a pena aceitar o pedido de amizade, ou então simplesmente para te certificares, que tipo de pessoa é que é; e deparastes com três fotos de perfil, uma delas uma cadeira, a outra um barco, e a outra uma planta, o nome de perfil; Ad JIK, ora bem, ficas na duvida se é um  gajo ou uma gaja...os amigos, fez questão de os esconder, (pois,nunca se sabe não andam para aqui a tentar roubar-me os amigos), profissão, não existe e o que estudou tb não,  conclusão, resolvi, aceitar o pedido de amizade de uma planta chamada Ad JiK...que não tem amigos, nem profissão, não mora em lado nenhum do pais, mas que gostava muito, mas mesmo muito, de ser minha amiguinha(o) no face bocas...... :-)


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

o tio e a tia saloia

Depois de alguns anos a trabalhar com o AIRBNB cheguei agora á conclusão que até percebo de pessoas. Pela minha casa já passaram muitas pessoas, a maioria estudantes Erasmus, oriundos de todos os cantos do mundo, desde o Canadá á Austrália passando pela Ásia até á Europa.
Todos nós sabemos que as pessoas são diferentes umas das outras, mas quando originárias do mesmo pais existe sempre qualquer coisinha que as une, por exemplo aprendi que os chineses gostam de beber um copo de água quente logo quando acordam, acham que desta forma estarão mais preparados para o dia, as espanholas nunca saem de casa sem secar o cabelo com o secador, pelo menos durante uma hora e cantam enquanto se banham. Os canadianos e Australianos, gostam de festejar e beber, os Islávos são tímidos quase nervosos e muito educados e comem muitos ovos,  e os franceses nunca fecham a porta do quarto (coisa que não percebo porquê) e falam muito mal Inglês!

O "Tio" saloio francês, chegou a minha casa, eu gosto dos saloios, até são boas pessoas, costumam ser francos e não têm muitas papas na língua mas podem ser "perigosos" porque dizem quase sempre o que lhes vem á cabeça e nem sempre medem as palavras, mas  com "Tios" ou "Tias" saloias nunca tinha tido nenhuma relação próxima.

O "Tio" saloio que chegou á minha casa, vem de Bordeaux, de uma cidade qualquer da província, considera-se um ser superior muito inteligente, com a expressão altiva e azeda de quem acabou de engolir um limão, gosta de fazer perguntas ás quais sabe a resposta, mas fala sempre com o intuito de ridicularizar o individuo a quem está a questionar, faz, perguntas do tipo: "então vocês os portugueses quando saem do pais vão para aonde?" e eu a pensar: "coitadinhos de nós portugueses temos mesmo muita má fama em todo o lado mas muito mais em terras francesas, Ai que este gajo está me a irritar, e o "tio saloio" continua o dialogo, falando da famosa imigração portuguesa dos anos 60 que tanta boa fama de saloios nos deu,  e continua acrescentando ao seu dialogo "quase todos os portugueses em Franca são porteiros ou pedreiros" e eu respondo tentando ser civilizada mas já a morder o lábio de baixo com a raiva que sinto que está a enfestar-me o corpo e a alma e respondo: "mas já não é bem assim isso era outros tempos" o " tio" saloio continua o discurso no seu Inglês  muito fraco e duvidoso, acrescentando ao seu inquérito: " e sabes falar dinamarquês?" pergunto a mim mesma, como é que uma pessoa pode ser tão burra socialmente e tão ignorante, respondo-lhe com ares de quem  diz" por favor porque é que não te vais catar? mas o rapaz não percebe a minha expressão corporal, pois para alem de "tio saloio" também deve ser autista, respondo "então se vivo aqui há 27 anos e dou aulas de educação visual em escolas dinamarquesas, que língua achas que falo com os miúdos?"

A palavra "saloio" é uma palavra curiosa, surgiu quando os galegos foram para Lisboa vender couves, depois desse fenómeno social, todas as pessoas que nasceram, viveram e cresceram em Províncias sejam elas cidades ou aldeias, são denominadas com piada por "saloias"...

Os "tios" saloios e "tias" saloias são uma tribo que infelizmente não está em extinção, a tia saloia é estupidamente snob, finge gostar dos pobres e dos provincianos mas não gosta, é possuidora de uma extrema moralidade dupla e é pior que a "tia urbana", pois em zonas pequenas rurais ou semi-rurais, sente-se a rainha da festa e gosta de ridicularizar e desprezar os outros, sempre dona de um enorme mau gosto, pode ser morena de traços muito latinos quase árabes ás vezes, mas de madeixas loiras, óculos de máscara, e calcas á boca de sino, pode lhe faltar um dente, mas nunca lhe faltará um carro ou um jipe de marca para conduzir, a tia saloia e o tio saloio, quando viajam de férias para o estrangeiro, viajam sempre com outros casais, estes também muito bem sucedidos na vida, (parece que todos estes casais antes de viajar se a viajem for para países frios) foram todos á mesma loja comprar o kispo da mesma marca, mas em cores diferentes, geralmente dá a ideia. quem avista de longe, de ser uma equipa qualquer vinda do sul da Europa que vem esquiar (mas na Dinamarca não há montanhas) o tio saloio geralmente usa um "abájur" na cabeça, aqueles penteados grandes de cabelo vasto, que todos os homens de dinheiro e bem sucedidos na vida em Portugal tem que usar!
A tia saloia quando se pronuncia, expira e prolonga muito sempre as silabas, geralmente vogais, por exemplo se perguntar; "porquê?" fá-lo assim: "... e porquuuueeeee e e? ou seja expira a vogal sempre mais prolongada que outro ser qualquer...  deve está escrito algures que as pessoas muito inteligentes e importantes têm que prolongar as vogais....

O meu "tio saloio de Bordeaux", segundo ele, oriundo de famílias muito importantes e de brazao, mas já sem "chateau" e a contar moedas, quando se expressa também prolonga muito as vogais mas claro estas em francês,....

o tio saloio é de estatura pequena, nasceu já velho, 22 anos, quase meio calvo, olhos azuis quase mortos, tez branca, óculos, de aspeto "nurt" já a iniciar o quinto de medicina, aspeto aborrecido,
Hoje chegou a casa chateado, porque os Dinamarqueses não o perceberam quando fala Inglês, e ele que pensava que era "such an important person" suavemente, dei-lhe uma palmadinha nas costas e disse-lhe não te preocupes eu ou a minha filha podemos te ajudar, disse que sim num sorrisinho amarelo, de quem sorri em vez de me dizer....porque é que não vais á merda? e foi para o quarto!


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Amor

Amor

Sentada e estranha nesta tua ausência, habituada de ter te a ti aqui ao meu lado, ouvindo o teu sonhar perco- me na dimensão dos teus olhos vivos e cheios de tudo, o amor veio ter comigo, mas veio devagar, entrando assim em pulinhos minuciosos esperando uma aprovação....tu nunca me deixastes, sempre ficastes aqui há espera do meu amor, e eu já te amava sem querer saber se podia te amar ou não, tu querias- me tanto!. e eu que sou poeta sem querer e sem o ser, demorei a compreender que tu me querias. Já é tarde para voltar atrás e o tempo fugiu de nós! tu que sempre me pedistes para te escrever uma carta de amor, nunca o fiz, mas agora que tu já te fostes, estou segura em faze-lo!

Esguios e magros, dois corpos se tocam, o teu cabelo grisalho e vasto, feito de poeta sofrido, alivia-se nos teus olhos escuros de mouro sem castelo....já ganhastes tantas batalhas .... já perdestes tantas guerras amor, e eu queria tanto aquele teu amor de volta!

O amor se existe, é meta-fisico e físico, tão físico como os beijos que trocamos, como o amor que fizemos.....agora na palma da tua mão, nos teus dedos magros e esguios,  entrelaçados, discretamente nos meus, encontrei o suor que se juntou ao meu,  e assim ficamos parados empreganhados para sempre um no outro....

Mas a cidade era grande! grande como uma casa de janelas abertas para o céu. Sabes que as estradas que percorremos já se gastaram? delas ficaram só as pegadas desenhadas em passos pequenos e só porque o vento deixou! por isso te peço amor, mostra -me outra vez a cidade que eu não conhecia, mostra-me o doçe timbre da tua voz porque eu quero acreditar outra vez...

A paixão deu lugar ao amor, foi-se embora singela e discreta, assim quase como quando entrou, Fechei a porta e a janela, e quis ficar aqui sentada esperando... estranho, discreto, seguro, quase aborrecido!

Deitei me assim a seu lado sem o querer perturbar! sem o querer acordar! senti-me só! ele estava lá, olhava-me! mas nós éramos estranhos, quase como dois inimigos...
o silençio da neve acalmou-nos, levou-nos ao branco e à dimensão da magia das coisas quase estáticas, que só se mexem quando nos queremos, e ai amor seremos felizes!

Sabes que as pegadas que outrora foram levadas pelo vento, reapareceram de novo? a neve, essa.... continuou a cair...mas desta vez muito mais devagar....






sábado, 10 de janeiro de 2015

Cultivasse cus

Aqui cultivasse cus!

Aqui nesta terra, temos o prazer de dizer, Que cultivamos cus.....
O Cu, é uma palavra feia mas de dimensões muito práticas, mulher que é mulher (em pais latino) tem como elemento base, tanto de satisfação individual, como para satisfação dos olhares alheios...a exposição do seu próprio traseiro, denominado em três simples silabas por Cu! o universo do cu e a dimensão que o rodeia é demasiado complexa para se poder explicar aqui em simples linhas...

Gosto e sempre gostei de roupa, gosto de observar como as pessoas se vestem, porque vestir para mim, significa muita coisa, vestir não é superficial (ao contrario que muitas pessoas pensam), vestir é um acto que reflecte, o teu estado de espírito, economia, religião, a política e a cultura do pais e aquilo em que acreditas.....sempre me preocupei sobre o facto de o porquê de tanta necessidade de a mulher portuguesa ter tanta necessidade de expor o seu traseiro? para conseguir encontrar a resposta á pergunta, terei que regredir muitos anos antes ao primórdio da cultura portuguesa e sua formação, ora vejamos! os portugueses sempre tiveram laços muito "apertados" com os povos africanos, a dança africana é baseada em movimentos do traseiro onde as mulheres movimentam e expõem  as ancas em sinal de fertilização, sensualidade e erotismo...
Será esta uma das muitas razoes, de tanta necessidade da exposição do ânus em Portugal? radicalmente falando, não há mulheres no mundo possuidoras de cus tão giros como as latinas, a mãe natureza mimo-as á nascença, dotando-as de um traseiro divino, (que não vem seguido das costas)  mas que ás vezes pode saltar demasiado para fora, como que uma prateleira para por livros...

Mas mulheres, o cu, devia ser exposto como um diamante polido e guardado num cofre e não como uma sirene alarmante como de uma carrinha de bombeiros.....essas calcas demasiado apertadas, transbordando duas nádegas de tamanho melancia de água e a blusa bem justa toda metida para dentro, para se ver bem que se tem um imenso traseiro, porque ser-se "boa" em Portugal ainda significa ser-se possuidora de um grande "cu", não te fica bem....
Principalmente as mulheres de meia idade, expõem assim, o seu traseiro enorme, enfiando-o numas calcas de ganga de uma forma tão vulgar que até a mim me parece mal olhar..é que fica tão feio...
quem lhes disse que os homens gostam disso? verdadeiramente falando,  a maioria dos homens não gostam de "cus" imensos os homens tal como nós mulheres, gostam de rabos bem feitos, não tem que ser necessariamente grandes, mas sim bem construídos, devendo ser expostos de uma maneira discreta, senão perde o interesse e pode se tornar vulgar  de olhar.....

Deixem  o aborrecido outfit "português" das calcas de ganga com camisas ou shirts bem apertadas, há outras coisas mais giras e interessantes para vestir. Estatisticamente falando, em vinte mulheres portuguesas dezoito vestem calcas de ganga dia sim dia sim....zzzzz que aborrecidas!
A calca de ganga apertada no traseiro e o top é um triste "must" em Portugal. Pronto já sabemos, que o problema irá ser:, como irei expor o meu cu se o não posso transportar numas calcas apertadas, assim de saia ou vestido ninguém o irá ver?

Pois já percebi, que o problema é grave, principalmente, se o individuo em questão  pensar se chamar "Raimunda" (feia de cara, boa de bunda) Não há problema! quem te disse mulher, que te ficava mal essa saia ou esse vestido? ficas tão elegante ousada e feminina que a  dimensão e o design que o teu rabo possa atingir, passa a ser secundária,.....as cores as linhas o corte da roupa que transportas pode ser fascinante e trazer muitas historias atrás de ti, faz a sensualidade dos teus passos, os gestos de como movimentas o corpo, e todos os acessórios que utilizas  pode fazer essa graça de se saber vestir a palavra  mulher!











sábado, 26 de abril de 2014

A banheira

Há tanto tempo que não faço isso, que saudades, deitar-me numa banheira debaixo de água e tapar o nariz, oiço o vizinho do andar de baixo, não consigo perceber o que diz...mas oiço-o falar, soletrar...palavras soltas, sons distantes. Gosto da banheira da casa dos meus pais, tenho uma afinidade muito próxima com essa banheira, conhecemos-nos em crianças, eu tinha quatro anos, a banheira somente uns dias, penso que foi amor à primeira vista...,
Costumava ser assim, nariz tapado, boca fechada...e permanecer debaixo da água o maior tempo possível, até  não se poder mais conter a respiração, a banheira da casa dos meus pais, faz- me recordar os sábados à tarde às cinco, depois da série televisiva, "uma casa na pradaria", agora quando a vejo, a banheira parece-me mais curta...muito mais curta...antes era enorme, dormia dentro dela, até os dedos dos pés e das mãos ficarem engelhados...de vez em quando, tirava a cabeça debaixo de água e escutava a minha mãe ao longe, atrás da porta fechada da casa de banho, o som vinha da cozinha...e ouvia-a falar, a avisar-me que a água já devia estar fria...que já estou dentro da água há muito tempo...que pode fazer mal....que posso apanhar uma congestão, as congestões Portuguesas, são famosas, oiço falar delas desde os 4 anos....penso..que. será  só em Portugal,  que as pessoas morrem de congestão?

A digestão, a banheira, e a praia da Costa da Caparica, teem um sentimento valioso,  guardado na memória das coisas da minha infância...lembro-me que.adicionado à banheira, vinha sempre a seguir a palavra, gás, oiço de novo a minha mãe, através da porta grossa e castanha da casa de banho, ao longe da cozinha -olha o gás, o gás? essa palavra, era adicionado às coisas da minha infância, as famosas garrafas de gás, bati com a cabeça numa delas quando tinha dois anos,  ...quatro pontos consistidos numa  cicatriz ao lado do olho esquerdo, as garrafas de gás são assustadoras, tais como os tijolos vermelhos..., não chego às campainhas, treze pontos, quase a perna toda, a minha mãe a chorar, ela era tão miúda, tão assustadiça e pequena, quase uma adolescente...e eu não sabia,....liga o esquentador! dizia o meu pai... Agora já não se liga os esquentadores pai.......são inteligentes, .acho que também, já não existirá, gerações, novas a escutar palavras e sons tais como..."liga o esquentador" "sai da banheira!" "olha a digestão"....olha o gás!...o tempo afasta- se de nós... afinal não somos nós que nos afastamos dele, ele é que se vai afastando de nós lentamente , dia após dia,... e vamos ficando assim velhos, velhos e presos à memória de infância por coisas absurdas e insignificantes da vida, como episódios em que nós, as banheiras, as garrafas do gás e os esquentadores, são coisas quase importantes....que às vezes também falam.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Os Natais do antigamente

Quando era pequena tinha sempre o desejo de ir passar o Natal ao Alentejo, a minha mãe não queria, tinha sempre como, pretexto e segundo as suas palavras, que o Natal no Alentejo era frio e que só se podia aguentar "de roda do fogo"..... tendo em conta que a minha mãe tinha o papel de chefe de família lá da casa e que era ela que ditava as ordens, de maneira que foram só duas vezes que o meu desejo foi cumprido e que toda a família que consistia, em mim na minha irmã e nos meus pais fomos passar o Natal ao Alentejo á casa da minha avó, onde vivia a minha tia, o meu tio e três primos.

A casa era grande consistia numa cozinha larga e espaçosa, os quartos lá em cima no primeiro andar ( que chamavam de soalho), a casa das carnes, a venda e a mercearia em baixo. Os meus avós eram comerciantes, e quando o meu avô morreu a minha tia foi viver para casa da minha avó e foi ela que ficou a cuidar do negócio da venda e da mercearia, lembro-me que nesta altura o Natal não era celebrado na noite, mas sim no dia de natal.

 as minhas tias prendavam-nos, com uns metros de tecidos de fazenda, os quais a minha mãe, costurava  vestidos,  as famílias reuniam-se, as mulheres da aldeia trocavam filhoses, rabanadas e fatias de bolo rei, bebia-se o vinho do porto e a aguardente de figo, para nós os mais pequenos havia as gasosas e pais natal de chocolate. O meu avô pai do meu pai, oferecia a mim e á minha irmã um saquinho de plástico que ele próprio enchia e que consistia, numa romã num pacote de bolachas Maria e vinte escudos, eram, uns Natais simples, simples como nos livros de histórias para crianças, Natais simples mas ilustratos, ilustrados com figuras de crianças de aspecto saudável, rechonchudas, rosadas e pais Natais, desses gorduchos de olhos redondos azuis sentados em cima de trenós cheios de presentes e ao longe a aldeia e o fumo a sair das chaminés...

Há noite, sentávamos-nos de volta da lareira da cozinha, onde em cima, costumavam, estar pendurados os presuntos e os chouriços. A minha avó e a minha tia contavam histórias da aldeia, ou histórias que a minha tia, lia num livro de páginas grossas e brancas, os mais pequenos bebíam chá, e comíamos torradas untadas de margarina e mel, no dia de natal almoçávamos o borrego com as ervilhas e à sobremesa, vinha o arroz doce, decorado com desenhos em forma de quadradinhos feitos de canela.

Este era o Natal do meu contentamento e apesar do frio gelado e húmido, típico frio do Alentejo, eu era feliz, nestes Natais passados em família, na aldeia de Santa Luzia,  este era o Natal do meu contentamento, um natal, com avôs de saquinhos com romãs, arroz doce sublinhado de quadradinhos de canela,  e metros de tecido como presentes. O meu primo que era um pouco mais velho que eu e com o qual eu brincava, ensinava- me a fazer armadilhas para "piscos",  passarinhos pequeninos, que caiam em armadilhas feitas pelos rapazes,  subir as árvores e apanhar  lenha, com o meu primo, com as minhas primas,  um pouco mais velhas que eu, íamos aos bailes.

 Havia baile na casa do povo da aldeia e então nesse dia, a roupa que as minhas primas iam vestir à noite no baile, permanecia, intacta e bem dobrada em cima da cama.
Neste dia, vestia- se a roupa mais gira que se tinha. Na aldeia engomava-se a camisa e as calcas ou a saia, vestia-se os collants mais novos e sem malhas, as idosas o xaile e o lenço negro, de maneira que me lembro que nesse dia na aldeia,  a roupa dos mais idosos cheirava a naftalina....o cheiro a naftalina na altura significava dia de festa a ida ao médico ou a viagem na camioneta da carreira "EVA" a Ourique ou a Lisboa.

Esses Natais, já passaram, e já não existem, o meu avô já não está à minha espera, nem da minha irmã, com o seu saquinho de plástico, com a romã, o pacote de bolachas Maria, e os vinte escudos, a minha avó já não me chama Lena, nem se chateia comigo, quando mexo no fogo, a minha tia, foi-se embora o ano passado, quando abalou já não conhecia ninguém, quando fecharam a porta do caixão, ia branca de cabelo grisalho e olhos sem vida, a minha mãe ainda lhe falou, disse- lhe entre muitas lágrimas, que há muito tempo que não a via, mas a minha tia não lhe respondeu. 

O cemitério, tinha pedras soltas no chão, e quase que ardia de calor, naquela tarde de Abril, o meu pai desesperado andava por ali, dando voltas, em cima das pernas coxas e doentes, tentando encontrar as campas correspondentes a cada familiar....e o padre brasileiro, dizia alto, - a irmã Eugénia que vai abraçar o reino dos céus" 
 pensei na minha tia Eugenia de olhos quase da cor do mel, altiva e contente, vestida de preto,  a atravessar o caminho do céu, vestia umas asas brancas e o meu tio Joaquim, acompanhava-a, algumas das sepulturas já não se conseguia ver as fotografias, o tempo e o sol, tinha- as desformado, o cemitério pequeno branco e pomposo, estava escondido no alto da estrada, muito a saída da aldeia, continua a fotografia da tia Eugénia, as ligas da tia, a minha tia e a minha avó, usavam umas meias altas presas com um elástico em cima. as meias eram pretas e os elásticos brancos, de vezes quando, se sentava de volta do fogo, a tia subia as meias para cima. 

Cheirava tão bem, cheirava a lenha a aldeia cheirava a lenha e a azeitonas e eu tenho saudades desse cheiro, quando os homens do campo, voltavam ao fim da tarde do campo, traziam o sol na cara e o cansaço com eles, os fins de tarde eram feitos de copos de vinho, bagaços e musicas Alentejanas, cantava -se todas as noites na taverna da avó e da tia Eugénia eu e o meu primo, lá em cima no soalho, a espreitar pelo buraco do chão, para os homens que cantavam lá em baixo na taverna, um começava a musica e os outros seguiam e acompanhavam. No ano de 1975 eu ia ao poço Concelho, com a minha avó, levava- mos um carrinho de ferro com espaço para duas enfusas, as enfusas eram da cor do barro e levavam muita água, naquela altura não havia água canalizada na aldeia, e bebíasse a água por um cocharro, o cocharro era feito de cortiça, era como uma colher gigante esculpida em cortiça,  a água sabia melhor...No verão à noite o céu era estrelado, e aldeia pequenina tinha moinhos e oliveiras a guardá-la e à noite as cigarras cantavam ....


domingo, 24 de novembro de 2013

O cigano

O cigano tinha abandonado o autocarro e andava sozinho pelas ruas em plena madrugada, o cigano não tinha medo queria apanhar gaivotas no cais do Tejo, o seu pai tinha- lhe dito um dia que as gaivotas escutavam as nossas prezes, então ele esperava que estas escutassem as suas. O cigano estava triste, apanhava a areia mole e fina da praia em grandes punhados, levantava a mão e deixava cair a areia lentamente, quase grão a grão, por entre os dedos abertos da mão...ficou assim vários minutos, quase horas, sentado na areia do cais, vendo as gaivotas e a deixar cair lentamente a areia no ar entre os seus dedos esguios de cigano...os pescadores iam chegando á praia, e o cigano afastava-se, queria estar só!

As nuvens desenhavam no céu um desenho lilás cinzento anunciando chuva. A chuva começou a cair gota a gota, primeiro muito devagar, depois mais forte, o cigano não se mexeu, ficou imobilizado sentado na areia da praia com os olhos postos no mar e no céu, as mãos estavam enterradas na areia, não se mexia, deixava a chuva cair- lhe em cima podendo assim sentir pena de si próprio. Eu não conhecia o cigano mas já o tinha visto várias vezes acompanhado do pai. 

Do outro lado do cais eu contemplava o cigano, o cigano era agora uma silhueta pequena triste e escura que se avistava ao longe, permanecia sentado agora com a língua de fora, queria provar a chuva, queria provar as gotas da chuva....o cigano vestia negro, e ontem tinha chorado muito, o cigano já não tinha pai e tinha os olhos vermelhos mas continuava pequeno quase criança, a vida tinha- o feito adulto à forca, mas ali naquele cais o cigano ainda era criança, era ali naquele cais, que ele podia ser pequeno quase criança aquando deitava a língua de fora e lambia as gotas de água de chuva, quando enterrava as mãos na areia trazendo punhados de areia ao ar que deixava cair e esvoaçar por entre dedos.
As pessoas não gostam de ciganos, e o cigano estava só, o cigano era agora uma criança que chora sentada na areia do cais, o cigano não tinha pai talvez nem mãe, e chorava....eu, de longe, continuava a contemplar o cigano, vi o  levantar o  corpo leve e frágil e ficar de pé parado, olhando o horizonte.

  O cigano  olhava o céu e as gaivotas, esperava destas, respostas ás suas prezes e escutavas-lhe o som. Eu o cigano as gaivotas e a areia do cais estávamos juntos em harmonia pintados num quadro, Da minha existência, o cigano nada sabia, eu da dele... muito pouco...sabia que estava na areia do cais, que falava com as gaivotas e que atirava punhados de areia ao ar que os deixava cair lentamente por entre os dedos, sabia que o cigano tinha perdido o pai...ouviu-lhe os gritos no dia anterior, ouvi-lhe os gemidos da dor no dia anterior...o cigano queria um abraço,  uma palavra amiga...o cigano estava só, o cigano era uma criança que estava só na areia do cais, o cigano era uma criança que enterrava as mãos na areia do cais fazendo-a esvoaçar no ar. por entre os dedos....permanecendo só na areia do cais....