Naquela tarde de terça feira, tinha o tio Francisco vindo de longe, sentado na sua égua a bufar, carregando uns alforres e um barril vazio. O caminho tinha sido arduo e longo, e ainda os grilos cantavam a tarde quente e serena, quando entrou na aldeia branca escondida entre montes e oliveiras, prendeu a égua, compôs a boina , e entrou na taberna, que se encontrava logo à entrada, na parte baixa da aldeia.
Copo atrás de copo, conversa puxa conversa, finalmente, enche-se os alforres de fruta, o barril vazio, com azeite, negocio feito, assunto arrumado, entretanto, chegam mais torresmos ao prato, azeitonas e pivedes, bebe-se mais um tinto, prova-se mais um outro bagaço, e troca-se mais umas palavras;
- então como é que vai a tia Inácia?
-há muito tempo que não o via por aqui,
-vim aqui buscar o azeite e a fruta ao Prudêncio.
A aldeia sempre a ser aldeia, o meio da tarde pronuncia-se, e o sino da igreja branca. espreita do alto da aldeia e interrompe o silêncio, com as suas quatro baladas fortes e sonoras, anuncia-se o meio da tarde, a conversa prolonga- se, e o som das vozes das pessoas, vindo do fundo da taberna, envolve-se no ar doce morno e sonoro, entre vozes de cigarras felizes, que cantam, ao sabor do intenso sol do baixo interior alentejano...e a aldeia sorri descansada.
O rapaz alto e bem parecido, aparentando não ter mais de dezassete anos, permanecia tranquilo e curioso perto do tio Francisco, o qual, depois de sete bagaços divinais e oito tintos, entre alguns oferecidos, em troca de serviços por ele, à muitos anos prestados.., começou a temer pela viagem de regresso a casa, e num aperto quase de desespero, no meio de um grupo de homens, confrontou o rapaz alto e bem parecido, desafiando-o na sua capacidade, de conseguir levar o animal de volta a casa, carregado com o azeite, lembrou- lhe que a égua por instinto, sabia o caminho, e que a única coisa que tinha a fazer, era se assegurar que a mercadoria chegasse intacta ao seu destino, a recompensa pelo trabalho, seriam de vinte escudos...
O rapaz, assim aceitou, confiando solenemente na sua experiência, de grande cavaleiro de, éguas, mulas, burros e machos, assim o fez, montou-se na égua e segurou-se às redeas com a maior das suas forças, mal a égua sentiu o rapaz sentado no seu dorso, munida de fome e do desespero de voltar a casa, voou como como num ápice, por entre montes, ladeiras ribeiros e riachos.
o vento soprava- lhe o cabelo, galopando por entre terras batidas, areias que voavam e pedras que saltavam, o rapaz sustinha o folego, às vezes fechava os olhos, pois a única coisa a fazer, seria, segurar-se, bem ao animal e confiar no regresso a casa, na esperança do animal chegar ao destino.
Chegando a uma ribeira, o animal abrandou o galopar, e por ela entrou, o rapaz assustado, não sabia, se o ribeiro fazia parte do caminho, ou se teria sido um atalho, instintivamente calculado pela égua, a água quase que chegava à cintura do animal, e a égua de cabeça bem erguida dentro do ribeiro e de olhar sublime, destemida, cumpria assim ferozmente o seu destino, o rapaz aflito, aprontou-se a fechar o garrafão cheio de azeite, com medo que a água ali entrasse, enrolou um trapo no bico do garrafão, que felizmente, encontrou num dos bolsos das calças, e assim atravessaram o riacho, o rapaz o azeite a fruta e a égua.
Saindo do ribeiro, avista -se o monte, quase terminada a aventura, a égua e o rapaz bem parecido, entram terra a dentro, destino cumprido, abranda-se o trote, e a égua corre para a manjedoura aflita e faminta de peito e coração cheio, finalmente em casa, o rapaz feliz salta da égua e entrega os alforres de fruta e o garrafão de azeite, à mulher de bata florida e de xaile cinzento que se encontra à entrada de uma casa pequena e branca, dum monte rodeado de oliveiras e de figos da índia, por alguns minutos, ainda trocam umas palavras, a mulher e o rapaz; a mulher pergunta;
- então fez-se difícil o caminho?
o rapaz respondeu;
-Olhe minha Sra, nunca tinha visto nada assim, corria corria, quase que não dei conta dela..na entrada do ribeiro, ia ficando sem o azeite.
a mulher encostada à porta de casa, ria-se, da conversa do rapaz, e escutando-o, enfiava as mãos pequenas e redondas, nos bolsos da bata...e de vez em quando soltava umas risadas.
A conversa terminou, e quando a tarde se fez escura, e já o fim da tarde, anunciava o principio da noite primaveril, já o rapaz alto e bem parecido se fazia à estrada, rumo à aldeia, a distancia de uns cinco ou quatro quilómetros, não o incomodava, feliz e orgulhoso, caminhava, lentamente, levou a mão ao bolso das calças, encontrou a nota, tocou-a levemente com a ponta dos dedos, sem a retirar do bolso, e como se a medos de a perder, orgulhoso sorriu e pensou...
tinha tido, um grande mérito no domínio da besta...
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