terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Amélia da Conceicão

Sai pela manhã, a pequena figura que a aldeia viu nascer, e nos seus nus pequenos pés, passeia a travessa pelo nascer do sol; a escola ao longe já existia, pequena, airosa e pintada de branco, ao cimo, no monte, o moinho espreitava a aldeia e girava sorridente. 

Percorria alguns caminhos de terra batida, uns ou outros, de pedra de calçada, Amélia da Conceicão, caminha, caminha segura no seu traje de menina, as pequenas pernas esguias e frágeis, são tal como o seu cabelo de cor dourada de espiga ao vento! os braços finos, seguram livros de capas azuis da cor do mar, e o vento levemente, ajuda- a a caminhar.

 A aldeia perdida no meio do monte, entre oliveiras e searas, sursurrava, era o principio do dia, a bata branca, o laço no cabelo, a escola e a professora...

 A professora que pede:- Amélia recita o canto!

Então Amélia recita-o, no seu frágil pequeno ser, quase assustado, de olhos grandes da cor do céu, firme na sua posição de menina, filha da aldeia e de futura rainha do céu,  Amélia vai recitando: 

"Amélia da Conceicão, sou eu então, posso afirmar

com esta pequena altura, minha figura é conheçida, 

altura não quero mais, gosto de ter esta medida "

 E as palavras saem- lhe soltas e leves ...e doçes ao soar

Amélia sorri, e no cansaço do seu corpo frágil e desnutrido, Amélia pensa, pensa naquele dia na escola no palco, onde todos olhavam, e onde ela foi estrela nesse dia, ainda se lembra, sozinha no palco,  recitava o pequeno canto,...a professora orgulhosa, e as crianças olhavam-na fascinadas, e ela continuava a cantar....

"Amélia da Conceição, sou eu então, posso afirmar 

Com esta pequena altura, minha figura é conhecida..."

E as crianças batiam as palmas... 

Agora, na cama branca estreita de ferro, debaixo da colcha fria do inverno, que a cobre, e presa num corpo cada vez mais fragil tuberculoso, e cada vez mais longe da vida, continua cantando, sussurando baixinho..."- Amélia da Conceição, sou eu então, posso afirmar"....o som das palavras saem -lhe mais baixo, quase tristes, mas Amélia sorri, ainda escuta a voz da irmâ e da mãe ao longe a perguntar- lhe Amélia, Amélia estás ai? ela enrola o dedo na ponta do lencol branco e ainda, vê pelo canto do olho, uma lagrima a rolar,  pela face vermelha, é a sua irmâ mais velha que a chora, sente a mão aspera e forte da mãe que a tenta segurar à vida, vê a silhueta ao longe do pai ao lado da fogueira casbixado, sentado de cabeça baixa, e a mãe ainda pergunta, Amélia, Amélia estás ai,? Amélia fecha levemente as pálpebras, e uma lágrima escorre pelo seu sorriso timido e já cansado, mas continua a sonhar, ela no palco, figura pequena, estrela nesse dia, Amélia da Conceição, sou eu então...e a mãe continua a perguntar Amélia, Amélia estás ai? 

mas a Amélia já cá não está, ela agora é rainha nos céus! 

 

 

 

 

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