O moço de Lisboa, tinha ele, uns nove ou dez anos, quando o vi subir, o monte pele primeira vez, moço bem arranjado de traje limpo e sapatos engraxados, olhar de quem não é dali, e que acaba de chegar, nunca o tinha visto antes por ali, mas como caminhava familiarmente a passos quase lentos ao lado da patroa do meu dono, decidi ficar, debaixo da oliveira, de corpo estendido ao sol, sobre a terra gretada e seca do pátio, só de cabeça meia erguida, seguindo-o com os olhos ....
A patroa, mulher esguia, e de pequeno porte, voz delicada, e crente na palavra do senhor, e na salvação das boas almas, praticava rezas à noite, e visitas à igreja aos Domingos, habituada a viver só, no seu monte bem cuidado e abundante, viúva e com os filhos casados e a viverem longe na cidade, tinha naquela tarde de sábado de Agosto, a visita do afilhado, vindo para passar as ferias de verão. Quando ele se aproximou, soltei um latido, e como se me conhecesse há muitos anos, fez-me uma festa no pelo, chamou-me de Campeão, sentou-se ao meu lado sobre a terra, debaixo da oliveira, em frente da casa caiada, debaixo do sol intenso do alentejo...
O caseiro, o caseiro que também, ali estava, era um homem solitário, que vivia a quatro ou cinco quilômetros num monte, o burro e eu acompanhávamos o caseiro todos os dias, seguiamos-lhe a sombra, guiados pelo sol, de monte para monte, caminhando os três, sobre a terra ressequida e gretada e quase vermelha, do alentejo, escutava-se os passos, os meus os do burro e os do caseiro, eram passos frequentes, firmes, quase constantes, alguns mais leves outros mais pesados, as horas da manhã e o fim do dia, o sol, os montes, o trigo, as árvores, as rolas reconheciam os nossos passos, o moinho branquinho e sereno ao longe, também, nos saudava ,e dava-nos licença para seguir o caminho, vínhamos e voltávamos de monte para monte, o Burro quieto e velho, quase que aborrecido, sempre obedecia....e lá continuávamos, o percurso de monte para monte...
O moço de Lisboa não gostava muito do burro, para bem dizer, não lhe tinha muita confiança, sofria assim , uma espécie de tortura diária infernal, feita pelo caseiro, que todos os dias o incentivava a montar-se no burro...duvidando a sua capacidade de rapaz de cidade, em monte alentejano, o moço negava montar-se no burro, e quase como aflito, evitava a presença do caseiro; não muito longe do monte, havia o pastor, o pastor tinha as suas ovelhas e era amigo do moço, pedia-lhe historias da familia e da cidade para contar, -então como é que é lá em Lisboa, e tens namorada? sentavam-se na terra seca, lado a lado, o moço e o pastor, o moço de lisboa respondia educadamente as perguntas do pastor, vigilavam as ovelhas, o pastor assobiava e elas vinham, retornavam a casa, o cão também entrava no cenário, e as ovelhas obedeciam, ligeiramente iam- se posicionando, nos lugares devidos, até terminarem, o que tinha que ser feito, e naquela paz de fim de tarde alentejano, o pastor e o moço de Lisboa continuavam o dialogo, em palavras soltas e latidos de voz, ao longe, ouvia-se as cigarras, os melros e sentia- se o cheiro do vento doce, da azeitona perfumada, em toda a sua calma....
Naquele domingo, de manhã, a madrinha como de costume, ia à missa, a madrinha perguntou ao moço de Lisboa, se a queria acompanhar, decidiu ficar sozinho, gostava de ficar sozinho, a madrinha concordou, com a condição de do monte, não sair, costumava ser obediente, mas tinha decidido naquela tarde de domingo, visitar o caseiro ao seu monte, seria segredo, nada nem ninguém poderia saber, a viagem não era longa, quatro cinco quilômetros de bicicleta por estrada de areia batida, e não demorar muito tempo, e assim fez,
Avistei-o logo ao longe, e para ajuda-lo às boas vindas, foi a correr ao seu encontro, a latir, fez-me uma festa nas orelhas, deu me uma palmada leve no lombo, e sorriu-me, o caseiro que estava a fazer a barba ficou admirado de tamanho alarido, tão cedo pela manhā, abriu a porta de casa, na curiosidade de ver o que se passava, e avistou o afilhado da patroa, que em passos lentos, segurando a bicicleta, aproximava-se lentamente, e numa voz civilizada e branda, anunciou -sou eu, vim fazer uma visita, o caseiro de camisa interior e ainda de pincel na mão e barba por fazer, sorriu, alegrando-se da visita.
o caseiro, mostrou ao moço de Lisboa, o monte e a casa, o pomar, a horta bem cuidada, os animais, a lenha guardada, a casa de fazer os enchidos, os quartos grandes e vazios, os cortinadas balançando -se ao vento, feitas de bordados e historias por contar, as mobilias de cerejeira, desenhadas, em retalhos celestiais, a mesa da cozinha longa e vazia feita de castanheiro, como se tivesse à espera de uma família que nunca, ia chegar...
Também, havia a Pileca para conhecer, tímida nervosa, mas confiante, uma mula, senhorita do monte, ali nascida e criada, habituada a pequenos trabalhos, e simpática nas suas atitudes, morena, baixinha, de pelo castanho escuro e grandes olhos cor avelã, as mãos grandes do caseiro bateram-lhe no lombo, o pé do moço de lisboa pisou firme na mão do caseiro, ajudando-o a subir, assim a montou, saiu do estábulo, feliz e contente orgulhoso, tarefa cumprida, não foi com o burro, mas aconteceu hoje aqui, com a pileca! o caseiro também sorria, mostrou -se orgulhoso na ajuda e no encorajamento prestado, e disse,: - Eu não te tinha dito que não devias ter medo,? estás a ver conseguiste....o moço de Lisboa não respondeu continuou montado em cima da Pileca às voltas no monte, de sorriso tímido, e eu acompanhava-os, ao lado, alegremente, latindo sem parar....